O coração batia devagar e o cansaço mal permitia à pequena Molly, de 6 anos, se levantar. O diagnóstico, bloqueio atrioventricular total, levava à indicação do implante de um marca-passo, que faria a correção do problema cardíaco e daria à paciente uma vida praticamente normal.

Esse até seria um procedimento comum, se não se tratasse de um cão. Apesar de o implante de marca-passo em animais não ser uma novidade fora do País, ainda é um grande desafio por aqui, o que causa a morte de muitos cachorros por falta de locais que realizem a cirurgia.

Nos EUA, por exemplo, o procedimento é realizado há mais de 20 anos, inclusive em clínicas particulares. Porém, no Brasil, o único hospital veterinário que fazia a colocação do marca-passo em cães era o da Universidade de São Paulo (USP), que há mais de um ano não realiza o procedimento porque o equipamento que auxilia os médicos a visualizarem onde o eletrodo está passando e sendo colocado no coração (o fluoroscópio) quebrou e não tem mais conserto.

De 2007 até outubro do ano passado foram feitos 23 implantes de marca-passo em cães na USP (7 só no último ano), todos com sucesso. Mas o número de pacientes com indicação para o procedimento é bem superior a esse. Só na universidade, em média, aparece um caso por mês.

“Vários pacientes vêm de indicações de veterinários externos. Havia uma fila de espera de dez cães quando tivemos de interromper as cirurgias, em outubro do ano passado, mas não sabemos se todos ainda estão vivos. Dependendo do tipo de arritmia, como o bloqueio atrioventricular completo, a expectativa de vida é muito curta”, explica Denise Schtwartz, professora do departamento de Clínica Médica do Hospital Veterinário da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP.

A cadela Molly estava na fila do implante da universidade e a sua dona, Solange Almeida Oliveira, de 47 anos, não sabia se iria conseguir salvar a melhor amiga.  “Fiquei apreensiva pelo risco anestésico da cirurgia, mas eu estava bem mais preocupada porque ficou muito claro que o único lugar que ela poderia passar pela cirurgia seria na USP. Como lá o equipamento estava quebrado, não havia nenhuma outra clínica que faria o implante”, lembra Solange.

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Solange e Molly. Cadela da raça labrador recebeu um marca-passo em hospital particular. Crédito: EVELSON DE FREITAS/ESTADÃO

Além de o aparelho que auxilia os veterinários durante as cirurgias não funcionar mais, a universidade também esbarra em mais um problema: conseguir o marca-passo. O hospital depende de doações, muitas vezes de dispositivos que já não podem ser utilizados em humanos por causa da validade de esterilização do produto. Uma resolução da Anvisa não permite que esses materiais sejam reesterilizados ou recondicionados para uso em humanos pela empresas que os comercializam, por isso a USP eventualmente consegue doações para pesquisa clínica e reesteriliza para serem utilizados nos cães. Mesmo assim as doações são muito pequenas.

Ainda que a vida útil dos aparelhos doados seja menor do que a de um novo, com duração entre seis a sete anos, são viáveis para serem implantados em cães. Animais dessa espécie normalmente apresentam a doença quando já são idosos, com mais de seis anos de idade, e têm uma expectativa de vida de 14 anos.

NOVIDADE

Clínicas particulares não ofereciam o implante pelo alto custo do marca-passo – o valor da colocação e do dispositivo poderia chegar a R$ 20 mil. Na USP, o dono do animal paga próximo a R$ 2,5 mil, o que inclui o eletrodo, o procedimento e as taxas. Além disso, para realizar o implante, o especialista em cardiologia precisa de treinamento específico e o hospital ter um fluoroscópio, que custa aproximadamente R$ 250 mil.

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Primeira cirurgia em hospital veterinário particular foi realizada no Pet Care. Crédito: EVELSON DE FREITAS/ESTADÃO

Mas a boa notícia é que hospitais veterinários particulares começaram a demonstrar interesse em oferecer o implante. Foi justamente graças à realização de uma cirurgia de treinamento no hospital veterinário particular Pet Care que a labrador Molly foi salva. O procedimento foi conduzido pelo veterinário Romain Pariaut, da Universidade da Louisiana, com auxílio do presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia Veterinária, Guilherme Goldfeder. O hospital pretende oferecer o marca-passo para seus clientes a partir do segundo semestre de 2014.

Para a dona da Molly, ter opções de onde fazer o implante do marca-passo é uma notícia que diminui a chance de uma dor no coração que não pode ser esquecida facilmente: a da perda de um ser querido. “Pode até ser caro, mas, se você levar em conta que é uma vida, não tem preço. Hoje meus cachorros são meus filhos, e é a mesma coisa de você ter de cuidar de um filho, não medimos esforços. Se fosse preciso pagar, eu lutaria por isso. O importante é ter alternativas”, completa Solange.

Matéria original: http://goo.gl/h7nr9I



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